A comunicação social na teoria e na prática

Fuçando a comunicação na Amazônia, Brasil e no mundo.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A GOLDEN AGE AMAZÔNICA- A MITIFICAÇÃO DA BELLE ÉPOQUE

Ao mito cabe também uma parcela significante na construção social da identidade cultural e na manutenção das tradições dos povos, onde o contato com nossos antepassados, ainda que oralmente, contribui para construção e fortalecimento das culturas étnicas e para o sentimento de pertença.
No Pará, mais especificamente na capital Belém, facilmente identificamos vestígios de uma memória saudosista e melancólica referente à “Era da Borracha”, onde se acredita ter sido o melhor momento econômico, cultural e social da cidade. Tudo isso alimentado pelas narrativas, muitas vezes míticas deste momento.
Essas narrativas compõem nossa identidade, nosso sentimento de pertença, ainda que à revelia. Alguma coisa nos antecede e nós precisamos dar continuidade aos hábitos, as tradições de acordo com o contexto de cada um, afinal a cultura é dinâmica  e estamos o tempo todo a experimentar coisas diferentes e a nos apropriar de hábitos provenientes de outras culturas, fato marcado pela mercantilização e posteriormente pela globalização.
Castro (1995), em sua Tese de Mestrado, Cidade Sebastiana, analisa e discute os vínculos afetivos com o passado muito distante cronologicamente, mas que se tornam rememoráveis para quem olha para trás, pois:

“O discurso sobre a ‘Era da Borracha’ é um corpo dado ao fantasma ‘Belém’. [...] É o duplo constante do ser, cuja duas esferas, a fenomência e a fantasmática, resultam no Ser cheio de histórias e ao mesmo tempo vazio delas, que é o Sujeito que articula o passado e o futuro (que articula a memória) de uma forma mítica, ou seja, narrativa” (CASTRO, 1995).

Não é difícil mitificar Belém nesse período, pois imaginar a capital da Amazônia com fortes intervenções europeias, seja na arquitetura, seja na moda ou mesmo nos dados econômicos e sociais que marcaram esse período, nos fazem remontar um momento áureo, um momento de apogeu e nos torna pertencentes a este lugar. Mas não se deve sobrepor o passado em relação ao presente, pois cada momento prescinde suas particularidades, seu contexto cultural.
Instalou-se a ideia de que depois da Belle Époque veio o resto, nada comparável àquele período, mesmo as comparações sendo injustas, quase sempre. O momento do El dourado dos Carajás, das primeira e segunda colonização da Amazônia, dos Grandes Projetos, e não tão próximo, da exploração das drogas do sertão, todos esses e outros momentos não teriam igual importância para a construção de nossa cultura, de nossa identidade?
No artigo Uma Belle Époque agora do Pará , João de Jesus Paes Loureiro mostra a relevância de vários momentos importantes da Amazônia, e destaca uma trajetória ascendente da produção e exportação cultural do Pará, especialmente a partir da década de 1990.

“Saindo da condição de espaço fértil para o extrativismo científico, cultural e artístico, o Pará vem assumindo sua fala como produtor de conhecimento, detentor de valores próprios, criador de formas artísticas [...]. Estamos assistindo a uma época na qual ‘Belém se mexe’” (LOUREIRO, revista Especial Bravo! Pará, 2011).

Percebe-se assim, a partir dos referidos autores citados, que o mito, por meio das narrativas, permeia o imaginário da construção da memória, mesclando vestígios do passado com as marcas do presente, tecendo assim uma identidade, muitas vezes imaginada, mas com base nos fatos.

*Texto sobre o conhecimento mítico, apresentado na disciplina Meodologia e elaboração de projetos.

REFERÊNCIAS

CASTRO, Fábio. F. H. Cidade Sebastiana: Era da borracha, memória e melancolia numa capital da periferia da modernidade. 1995.  143 f. Dissertação (Mestrado em Semiótica e Sociologia da Cultura) - Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília, Distrito Federal, 1995.
LOUREIRO, João de Jesus Paes. Uma Belle Époque agora do Pará. Especial Bravo! Pará, São Paulo, p. 65 – 67, dez. 2011.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um conceito antropológico. Rio de Janeiro-RJ: Jorge Zahar, 2009.

















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